terça-feira, 15 de março de 2016

O absurdo natural

Quando eu era criança não ganhava nada de dia das crianças. Isso mesmo, nada. Ficou espantado?
Pois não devia.
Para os meus pais a data não tinha muito sentido, além do que, quando você vem de uma família muito católica, o dia 12 de outubro é dia de Nossa Senhora Aparecida, na minha, além de tudo, também era aniversário da nossa avó, ou seja, não tinha dia das crianças pra mim.
Quando eu chegava na escola, no dia seguinte, todas as crianças gostavam de contar o que haviam ganho, virava até tema de redação nos primeiros anos de ensino. Eu me limitava (ou me ilimitava) a inventar qualquer coisa, até pq toda vez que eu falava que não havia ganho nada as outras crianças me olhavam como se fosse um E.T. Ninguém nunca me perguntava o motivo, só deduziam que meu pai devia ser muito pobre ou muito malvado por não me dar presente. Chegou uma hora que parei de inventar presente e falar que não ganhava nada, principalmente quando nos meus 15/16 anos isso ainda era assunto. Sim, pessoas ganhavam presente de dia das  CRIANÇAS mesmo com 16 anos. O que deveria ser a coisa mais natural do mundo, levando em conta que dia das crianças é de fato uma data sem nenhuma expressividade além do fundo comercial (pesquise a história da parceria entre a Estrela e J&J, para entender), se tornou uma aberração, motivo de exclusão e estranheza. Hoje percebo que não me causou trauma ou nada assim não ser presenteada, eu esperava mais pelo almoço do domingo do dia 12 e o fato de poder ver meus primos. Ainda assim até hoje me olham estranho quando conto. Isso acontecia e acontece toda vez que nós transformamos o absurdo no natural.

Um belo dia a filha da minha melhor amiga estava com uma amiguinha no carro e essa amiguinha ficou indignada ao perceber que não havia tv no carro. Que absurdo, como uma criança na escola em que ela estuda, nas roupas que ela usa, não ter uma tv no carro? E mais uma vez o absurdo se torna natural e o natural é absurdo.

Hoje em dia a criança que não tem babá é a exceção, é estranha, a que não tem o brinquedo da moda, a pessoa que ainda não foi no restaurante famoso também. Trabalhamos, subimos alguns centavos na conta e isso gera exigências que parecem naturais, mas não são.

Quando você comemora o fato de  que uma artista negra, famosa tenha babá, você comemora uma exceção, o que deveria ser natural, mas é estranheza na realidade em que vivemos. Se é estranheza é porque vai contra o que a maioria aceita.

Aparentemente a maioria acha normal pais abrirem mão da companhia de seus filhos levando uma babá pra cima e pra baixo, marcadas como que com um ferro quente (que hoje foram substituídos pelo "inocente"uniforme branco), mesmo quando não há a menor necessidade.  A maioria acha normal funcionários de posições consideradas menores na escala social brasileira (até pq em muitos países você precisa da mesma formação de um publicitário para ser babá, ser lixeiro é tão relevante quanto ser dentista e por ai vai e ninguém ostenta seu funcionário particular pq eles são iguais) serem usados como um acessório de ostentação, é quase o mesmo que o relógio caro, a diferença é que o relógio custou mais caro e recebe mais respeito. É uma pessoa pra escolher sua roupa, outra para fazer sua comida e (pasmem) uma até para segurar guarda-chuva. Mas você paga, até assina carteira, entnao tá tudo bem. Tá fazendo sua parte dando emprego pra quem não estudou. Pq será que essa pessoa não estudou mesmo?

Quando você cita o fato de que fulano tem um motorista branco, uma faxineira branca, ou que o filho da sua diarista passou no vestibular você tá comemorando a exceção e achando que tá tudo bem.
Pensa bem, quantas vezes você contou por ai, ou viu uma matéria assim: "Filho de advogado passa em 4 federais"??
Nenhuma né? Pq é normal, o estranho é o negro, pobre, filho da faxineira fazer faculdade e quando ele tá lá estudando ainda sofre preconceito, mas sobre isso ninguém escreve né? Isso é o natural.

Mesmo quando exaltamos ou torcemos o nariz para a estranheza, estamos excluindo. Não é porque a sociedade considera normal que é o certo o aceitável.

Agora pensa: quantas estranhezas, quantos costumes desnecessários, quantos supérfluos, consideramos normal, necessário e natural?

Você vai pra rua pedindo igualdade, mas quer que essa pessoa carregando seu filho continue sem formação pra não ficar caro na hora de eu pagar, quer que ela esteja de uniforme pra deixar claro o qe faz ali. Até porque pagar pouco pra certas funções é natural, já é normal.

Do mais, não é porque tá pago que você usa como quiser, algumas das "coisas" que você considera "objeto" e ostenta por ai têm cabeça, pensa, fala, é gente e merece respeito.




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