quarta-feira, 23 de março de 2016

200oe pouco é muita fuleragem...

Em uma das minhas crises de ansiedade eu comecei a ler sobre muitas coisas e alguns artigos antigos sobre a vida. Me deu um pouco de medo perceber o quanto nós estamos nos imbecilizando. Achamos que seremos adolescentes para sempre, evitamos filhos, bebemos muito, malhamos demais, tocamos de menos, digitamos demais, estudamos demais, praticamos de menos, dependemos demais e vivemos de menos.
Esse ideal absurdo de que VOCÊ PRECISA SER FELIZ é simplesmente deprimente. Viver envolve uma caralhada de sentimentos e que bosta de vida medíocre você teria se ela se resumisse à felicidade.
Você tá sofrendo, com o trampo, com a política, com relacionamento e a culpa não é dos seus pais que não te deram um apê ou uma bela mesada. A culpa é tua. Eles trabalharam feito filhos da puta para te alimentar e você tá ai, deprimido pq seu app super cool não vingou. Acorda!
Baseada na minha vida que até ontem achava uma bosta, eu resolvi me ver e tentar viver como uma pessoa de 28 anos nos anos 80, para tentar ver como as coisas não são tão dramáticas quanto parecem.
Então, resolvi fazer uma pequena lista de insultos. Vamos a ela...

Verdades vindas diretamente do passado que todo mundo deveria saber:

1- Vai ter que trabalhar sim e nem sempre você vai estar no seu trabalho dos sonhos. É a vida;
2- Estudar é ótimo, mas todos os mil cursos que você fez não vão valer de nada se você não tiver experiência, profissionalismo, contato e jeito para a coisa;
3- Com 35 anos você não é adolescente. Para de ser ridículo!!!!!!
4- Não existe hora certa para ter filho. Você não precisa ser rico para ter um. O ser humano tinha uma coisinha chamada resiliência e parece que perdeu. Você se adapta, ao chefe chato, ao bebê inesperado, ao jiló e até ao ônibus lotado.
5- Você tem 25 anos e quer tirar um ano sabático? Meu filho, você nem suou ainda. Para de graça;
6- Seus país não deveriam ser uma opção quando seu trampo ou sua vida dá errado. Deixe os dois viverem a aposentadoria, eles não têm mais obrigação de cuidar de você.
7- Ser rico não é importante, ter roupa da moda, o melhor celular, nada disso é. As pessoas costumavam chegar 6h da tarde em suas casas, jantar todos na mesa e todos sobreviveram, acreditem, mesmo com 4 pares de sapato, nenhum celular e roupas que não eram de marca. Supere.
8- Enquanto você buscar a pessoa perfeita, você vai continuar na punheta. Sim. Pessoas precisam (MAIS UMA VEZ) entender o conceito de resiliênciaaaaaaaaaaaaaa....ninguém vem no molde para você. Vai ter briga, vai ter porta batendo, vai ter choro e isso não é motivo para achar que não existe ninguém bom o suficiente, você que é um/a bunda mole que não lida com dificuldades.
9- Sem tristeza você jamais entenderia o que é felicidade, sem dificuldade você não daria valor para as conquistas. Nunca, jamais se esqueça disso. E sua tristeza não é culpa de Deus, ou da Dilma ou da mina/cara q te deu bota. É um mal necessário, todo mundo merece e devia ficar triste e sofrer as vezes.
10- Pessoas são importantes. Sem essa de "gosto mais de bicho, do que de gente". Você precisa lidar com pessoas, beijar pessoas, abraçar pessoas, xingar pessoas, do contrário você vai trocar por coisas mais destrutivas e/ou fotos, vídeos e contatos virtuais, o que nos leva de volta para a punheta hehe..mas sério, pessoas são importantes, o ser humano levou anos para desenvolver a capacidade de fala, e viver em sociedade de maneira minimamente civilizada, não enfie isso na bunda pq você acha cool trepar pelo chat do facebook e falar que prefere animais.
11- A sua vida não é um comercial da coca e nem precisa ser. A sua vida é sua, do seu jeito, e com as suas estranhezas. Para de querer e agir como se estivesse em um enlatado americano. Aceite que você não precisa de 5000 likes no instagram para ser querido. Foda-se os K quem precisa de k depois de um número? A vida tá todo dia ai rolando, enquanto você tá puto com a velocidade da internet.
12- Leve o mínimo de eletrônicos possíveis nas suas férias. Tire o mínimo de fotos que puder, se acaso tirar, lembre-se que você não precisa postar todas, guarde para mostrar para os netos, chame os amigos na sua casa para ver, trabalhe sua memória e as lembranças.
13- Se você está triste diga, se estiver feliz, também. Você não precisa que sua vida seja o ideal aspiracional de ninguém. Ninguém é 100% feliz ou lindo, ou seguro, nem essas centenas de pessoas "famosas" que você segue nas redes sociais.
14- Saiba rir de si mesmo, não é vergonha nenhuma ser ridículo. (As pessoas usavam ombreiras e mullets, achei que essa lição dos anos 80 não poderia faltar.)
15- Você pode ser muito bom em algo que não é o seu sonho e tudo bem. Faça o que se propôs a fazer da melhor maneira possível, sendo você músico, sorveteiro, engenheiro, médico, o que for. Faça o seu melhor independente do que esperam de você ou do que os veículos de comunicação te disserem.


Essa lista eu fiz pra eu mesma, pq além do rabo de cavalo lateral, o cabelo volumoso, o cropped, a calça alta e the bangles no último volume, eu precisava viver um pouco mais os anos 80 pra me livrar de mais uma das minhas crises de ansiedade. E cá pra nós, 2000 e tantos tá cheio de zé ninguém metido a besta, sem nada pra acrescentar além do rosto bonito e da "vida perfeita". Tudo muito cheio das fuleragem. Coisa mais impossível. Benzadeus.

terça-feira, 15 de março de 2016

O absurdo natural

Quando eu era criança não ganhava nada de dia das crianças. Isso mesmo, nada. Ficou espantado?
Pois não devia.
Para os meus pais a data não tinha muito sentido, além do que, quando você vem de uma família muito católica, o dia 12 de outubro é dia de Nossa Senhora Aparecida, na minha, além de tudo, também era aniversário da nossa avó, ou seja, não tinha dia das crianças pra mim.
Quando eu chegava na escola, no dia seguinte, todas as crianças gostavam de contar o que haviam ganho, virava até tema de redação nos primeiros anos de ensino. Eu me limitava (ou me ilimitava) a inventar qualquer coisa, até pq toda vez que eu falava que não havia ganho nada as outras crianças me olhavam como se fosse um E.T. Ninguém nunca me perguntava o motivo, só deduziam que meu pai devia ser muito pobre ou muito malvado por não me dar presente. Chegou uma hora que parei de inventar presente e falar que não ganhava nada, principalmente quando nos meus 15/16 anos isso ainda era assunto. Sim, pessoas ganhavam presente de dia das  CRIANÇAS mesmo com 16 anos. O que deveria ser a coisa mais natural do mundo, levando em conta que dia das crianças é de fato uma data sem nenhuma expressividade além do fundo comercial (pesquise a história da parceria entre a Estrela e J&J, para entender), se tornou uma aberração, motivo de exclusão e estranheza. Hoje percebo que não me causou trauma ou nada assim não ser presenteada, eu esperava mais pelo almoço do domingo do dia 12 e o fato de poder ver meus primos. Ainda assim até hoje me olham estranho quando conto. Isso acontecia e acontece toda vez que nós transformamos o absurdo no natural.

Um belo dia a filha da minha melhor amiga estava com uma amiguinha no carro e essa amiguinha ficou indignada ao perceber que não havia tv no carro. Que absurdo, como uma criança na escola em que ela estuda, nas roupas que ela usa, não ter uma tv no carro? E mais uma vez o absurdo se torna natural e o natural é absurdo.

Hoje em dia a criança que não tem babá é a exceção, é estranha, a que não tem o brinquedo da moda, a pessoa que ainda não foi no restaurante famoso também. Trabalhamos, subimos alguns centavos na conta e isso gera exigências que parecem naturais, mas não são.

Quando você comemora o fato de  que uma artista negra, famosa tenha babá, você comemora uma exceção, o que deveria ser natural, mas é estranheza na realidade em que vivemos. Se é estranheza é porque vai contra o que a maioria aceita.

Aparentemente a maioria acha normal pais abrirem mão da companhia de seus filhos levando uma babá pra cima e pra baixo, marcadas como que com um ferro quente (que hoje foram substituídos pelo "inocente"uniforme branco), mesmo quando não há a menor necessidade.  A maioria acha normal funcionários de posições consideradas menores na escala social brasileira (até pq em muitos países você precisa da mesma formação de um publicitário para ser babá, ser lixeiro é tão relevante quanto ser dentista e por ai vai e ninguém ostenta seu funcionário particular pq eles são iguais) serem usados como um acessório de ostentação, é quase o mesmo que o relógio caro, a diferença é que o relógio custou mais caro e recebe mais respeito. É uma pessoa pra escolher sua roupa, outra para fazer sua comida e (pasmem) uma até para segurar guarda-chuva. Mas você paga, até assina carteira, entnao tá tudo bem. Tá fazendo sua parte dando emprego pra quem não estudou. Pq será que essa pessoa não estudou mesmo?

Quando você cita o fato de que fulano tem um motorista branco, uma faxineira branca, ou que o filho da sua diarista passou no vestibular você tá comemorando a exceção e achando que tá tudo bem.
Pensa bem, quantas vezes você contou por ai, ou viu uma matéria assim: "Filho de advogado passa em 4 federais"??
Nenhuma né? Pq é normal, o estranho é o negro, pobre, filho da faxineira fazer faculdade e quando ele tá lá estudando ainda sofre preconceito, mas sobre isso ninguém escreve né? Isso é o natural.

Mesmo quando exaltamos ou torcemos o nariz para a estranheza, estamos excluindo. Não é porque a sociedade considera normal que é o certo o aceitável.

Agora pensa: quantas estranhezas, quantos costumes desnecessários, quantos supérfluos, consideramos normal, necessário e natural?

Você vai pra rua pedindo igualdade, mas quer que essa pessoa carregando seu filho continue sem formação pra não ficar caro na hora de eu pagar, quer que ela esteja de uniforme pra deixar claro o qe faz ali. Até porque pagar pouco pra certas funções é natural, já é normal.

Do mais, não é porque tá pago que você usa como quiser, algumas das "coisas" que você considera "objeto" e ostenta por ai têm cabeça, pensa, fala, é gente e merece respeito.